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terça-feira, 23 de junho de 2015

Viviany Beleboni não representa


Viviany Beleboni, a atriz que realizou uma performance em que aparecia crucificada, na última parada gay, participou ontem do Hora da Coruja, programa de filosofia na FlixTV, conduzido pelos amigos Francielle Chies e Paulo Ghiraldelli Jr., ocasião em que lhe fiz uma pergunta. Perguntei-lhe sobre o que ela achava do caráter político da parada gay, do modo como se manifestavam politicamente a comunidade LGBT.

O que motivou minha pergunta foi o fato de, mais cedo, ali mesmo, e em outras entrevistas, Viviany ter alegado que não concordava com o modo com que estão, principalmente alguns políticos difamadores, vinculando sua imagem à de outros manifestantes mais exaltados.

Sabe-se que o pastor deputado Marcos Feliciano divulgou uma montagem em que aparecem as imagens de Viviany crucificada em um quadro, junto a outros quadros em que aparecem outros manifestantes executando performances mais agressivas, uma delas é a de enfiar um objeto no cu, outra é a de fumar maconha. Sabe-se também que já foi desmentido que os quadrantes retratando os heterogêneos manifestantes não são todos da parada gay. (O leitor pode ver a reportagem em que ocorre o desmonte da farsa aqui). Porém, por que incomoda Viviany o fato de vincular sua imagem a outras manifestações?

domingo, 22 de fevereiro de 2015

Casamento, amor e condução da vida*


Boa noite, recém-casados.

Boa noite, amigos presentes.

Quando minha irmã me convidou para ser padrinho de seu casamento e preparar um discurso, pensei que não poderia fazer outra coisa, se não algo relacionado à filosofia. Mais ai me ocorreu: falar algo do gênero pode não dar certo; o discurso fica chato se eu não souber levar. Mas, ao mesmo tempo, não posso escapar disso, porque é algo que corre nas minhas veias.

Amigos,

Vocês imaginam que um filósofo, chato, falaria algo do gênero “O casamento é uma instituição que, na origem, nada tem a ver com amor e tudo tem a ver com patrimônio” e, assim, estragaria todo o romantismo que essa ocasião pede. É verdade que o casamento, na origem, era isso, mas a origem não informa tudo sobre as coisas.

As coisas se transformam. A gente sabe que o presente ignora tanto o passado que não é raro que aquilo que existia no início acaba por ter pouca influência no dia a dia. Hoje e já há algum tempo, esta instituição chamada casamento simboliza outras coisas: o amor de duas pessoas e o quanto elas querem perpetuar esse amor indefinidamente.

Sand e Thiago,

Supostamente, eu, como padrinho, tenho que aconselhar vocês sobre o amor e sobre como preservar o amor.

Bem, o amor é um tema caro à filosofia. Mas vocês dois não se preocupem. Não vou falar aqui da origem grega do amor que era designado por três palavras e não por uma só. Não vou falar sobre Eros, philia e ágape – nomes engraçados pra noções que a gente pode começar a compreender perfeitamente por outros termos: desejo, amizade e caridade.

O desejo diz: eu te amo, você me faz falta, eu quero você.

A amizade diz: eu te amo, sua companhia me transborda, eu quero estar junto a você.

A caridade diz: eu te amo, Deus ama a todos, e, por Sua causa, nosso amor é possível.

O desejo é conhecido por não depender da escolha da gente. A falta que faz o outro, quando a gente ama, tanto vem, quanto vai, como se tivesse vontade própria. Os antigos consideravam o desejo divino por causa disso.

A amizade também tem o seu quê de não escolha. O ditado “a gente não faz amigos, mas reconhece” guarda certa verdade. Mas a gente reconhece não porque falta algo, mas porque a gente tá transbordando e quer compartilhar esse transbordamento com alguém nas mesmas condições.

A caridade é um sentimento tão desinteressado que só quem tem a divina capacidade de gerar uma vida é capaz de demonstrar. Ou seja, ou Deus ou a mãe e o pai da gente.

No casamento, as três formas de amor vão ter ocasião de aparecer. Não vejo utilidade em estabelecer qualquer hierarquia entre elas e aconselhar vocês, Sand e Thiago, por exemplo, a preservar mais uma que outra. Também não vejo como, do alto dos meus 25 anos, eu possa aconselhar um caminho seguro pra que o amor, em qualquer das manifestações, seja prolongado indefinidamente.

Sand e Thiago,

Amigos,

Como filósofo, não como sábio, não saberia aconselhar um caminho certo. Também não saberia aconselhar um caminho que fosse alheio ao que eu próprio já escolhi pra mim.

O que falarei a seguir – embora não sejam palavras minhas, mas de Nietzsche – tá inscrito em meu tecido mais profundo. Penso que essas palavras podem ser úteis pra vocês, caso vocês saibam dar ouvidos a ela.

Sobre como conduzir a vida:

“Se, em tudo aquilo que queres fazer, começares a te perguntar ‘será que quero mesmo fazê-lo em um número infinito de vezes?', isso será para ti o centro de gravidade mais sólido. Minha doutrina ensina: vivas de tal maneira que devas desejar reviver; é o dever. Aquele cujo esforço é a alegria suprema, que se esforce. Aquele que ama antes de tudo o repouso, que repouse. Aquele que ama, antes de tudo, submeter-se, obedecer e seguir, que obedeça. Mas que saiba bem aonde vai sua preferência e que não recue ante nenhum meio. É a eternidade que está em jogo. Essa doutrina é amável para com aqueles que não acreditam nela. Ela não possui nem inferno, nem ameaças. Aquele que não acredita sentirá, em si, apenas uma vida fugaz.”

Sand e Thiago,

Eu não desejo a vocês uma vida fugaz.

Vivam como se desejassem reviver um número infinito de vezes.

Não recuem ante nenhum meio.

A eternidade está em jogo.


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* Discurso feito pelo padrinho Vitor para os recém-casados, Sand e Thiago, em 21/02/2015.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Aforismos nietzscheanos




DE FATO

O seu maior desafio é dizer algo "de fato" que não pressuponha algo "de valor". Por mais que tente, a sua mediocridade sempre falará antes que a sua boca quando você tentar dizer algo sobre o "mundo".

AVALIAÇÃO

O homem é o animal que avalia e, portanto, que valora. Não, porém, como um juiz -- supostamente imparcial --, mas sempre como uma das partes, ré ou requerente. Dizer algo de fato nunca está dissociado de requerer algo de direito. O discurso sobre o "mundo" é sempre uma petição carregada de valores.

FILÓSOFA RAINHA

Havia uma filósofa rainha que,de tão libertária, não aceitava que a qualquer indivíduo fosse imposta qualquer tipo de crença. Foi quando ela encontrou a solução: proibiu todos os pais de criarem os filhos de acordo com suas particularidades. "Tudo pela liberdade"!

NÃO TER ASAS

O que significa não ter asas? - ser rigoroso! - afirma o ourives de conceitos. Ora, ourives, não confunda impotência com austeridade, você que tanto gosta de conceitos. O austero não voa porque é rígido, inflexível e não porque não queira voar. Não é uma escolha sua. Ainda que tivesse asas cheias de penas, o austero não passaria de um penoso -- no máximo um penado -- jamais seria um pássaro.

PENA

Há quem colecione penas para voar: Ícaros. Há quem colecione penas para o próprio pesar. - mas Ícaro morreu ao chegar perto do sol - diz o penado. Tire a adversativa da oração e do coração e diga, com orgulho: "Ícaro morreu ao chegar perto do sol!". Você no máximo morrerá de mais uma pena -- a que sentirão de você.

EICHMANN

- Ousai saber! Mas não se atreva a desobedecer - disse um kantiano entre os nazis.

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Carregado de ódio


Há um termo, utilizado no vocabulário marinho, que designa a escultura com feições humanas ou animalescas, geralmente em forma de busto, embora possa aparecer de corpo inteiro também, que ornamenta a dianteira das embarcações. Tal escultura serve geralmente para evocar o nome da nave e também para afastar maus espíritos. Servindo para este último propósito, a cabeça de proa é quase sempre uma criatura feroz, com feições sombrias, fechadas, feitas na medida para impor o medo. Estou falando aqui da carranca.

A origem da palavra carranca é controversa, segundo o Houaiss. Não tem etimologia. Mas ao se fazer um exercício imaginativo pode-se aproximá-la por semelhança do verbo carregar. Essa sugestão ganha ainda mais força quando se verifica que outro atributo, além de sombrio, para expressar a feição da carranca é justamente a adjetivo carregada. Carregar é adicionar algo a algum lugar. Porém, quando algo está carregado, em sentido figurado, significa que há um excesso de carga, como quando nos referimos a um “perfume carregado”. A carranca só é carranca porque apresenta as feições carregadas e, por isso mesmo, medonhas.

Deriva de carranca, o qualificativo carrancudo. O carrancudo é aquele que, além da fisionomia, tem carregado o espírito e, devido a isso, seus fluidos corporais não circulam bem. Na antiguidade, tais fluidos corporais eram chamados de humores e eram tidos como determinantes das condições físicas e mentais do indivíduo. Hoje, essa crença antiga sobrevive quando dizemos que alguém está de mau humor querendo nos referir exatamente ao carrancudo. Este, aparte de ser um doente de corpo, é sobretudo um doente de espírito, já que está carregado.

Mas qual é a causa para que alguém se encontre, nesse sentido, carregado?

domingo, 20 de julho de 2014

Estaria Leonardo Boff sofrendo de uma séria doença?

Leonardo Boff


Há uma doença no meio intelectual que o torna motivo de zombaria. O efeito principal dessa moléstia é fazer com que um autor cite outro a fim de parecer mais erudito, sem se importar se o excerto utilizado se ajusta ao todo argumentativo de seu próprio texto ou se o fragmento referido não contraria o pensamento macro do pensador referenciado. Dentre os citados, Nietzsche consta com certa frequência, talvez devido ao caráter aforismático de sua obra, aberta à polissemia. Afetado pela doença e, por isso mesmo, querendo parecer inteligente, um autor cita Nietzsche. E é desse ato que surge o nome para a enfermidade inflamatória das faculdades mentais: a citanietzsche.