Não dá
pra tolerar gente que dá no saco. O fanático é o típico cara que
dá no saco. Como tolerá-lo?
Consigo
identificar uns três graus de fanático. O primeiro – no qual nos
incluímos – é o chato e é bem caracterizado naquela canção de Clarice Falcão, Monomania. O segundo é o que só conhece um
discurso moralmente certo e tenta implantá-lo, nos limites
democráticos, ao máximo de pessoas possível. O terceiro é o mais
mortal e, dentro do jogo que ele quer instituir, a democracia não é
concebida.
Todos, em
alguma medida, somos fanáticos. No sentido mesmo de ser muito fan de
alguma coisa. Times de futebol, bandas musicais, autores de livros,
correntes de pensamento, doutrinas religiosas. E por ai vai. Condenar
que o cara pregue o velho testamento no pé do ouvido é fácil.
Quero ver parar de postar memes no Facebook proclamando o ateísmo. O
ateu é o novo crente. O crente, sabemos, já não acredita em deus
há tempos.
Mas o
chato a gente tolera. Há toda uma etiqueta que nos impele a isso.
Estamos numa roda de amigos conversando, rindo, ai vem o chato. A roda
está fechada, mas ele vem de mansinho e se posiciona atrás de
alguém. Ninguém dá bola. Ele espera mais alguns segundos,
acotovela um e força a entrada – pronto ele já está na roda, mas
todos fazem aquele último esforço para não notá-lo. Outros
segundos mais e ele se mete na conversa para complementar o
que está sendo dito. Quando ele começa a complementar, você já viu. Eis o chato: ele não vai ouvir você; conversa para
ele se resume a esperar você terminar de falar para ele continuar
falando.
Somos
amigos de chatos. Afinal, as pessoas são nossas amigas, não são? Mas
há outro tipo de fanático que é preocupante um degrau a mais. É
um tipo mais perigoso porque ele dá a entender que quer conversar,
mas tudo o que ele quer é arrebanhar mais alguém para sua doutrina.
Ele, por definição, é intolerante, o que o leva a só ter amizades
que se encaixem na sua visão de mundo. Não é o objetivo dele
aceitar a diferença. Tudo o que ele quer é igualar. Só há um modo
como as coisas são. Quem se desvia disso está errado. Para ele, até
mais: moralmente errado.
Nesse
caso, há não uma etiqueta, mas uma ética que nos diz para tolerar
também esse ai. A democracia até os institui. Quem são eles? O
tipo partidário político é um exemplo. Se ele se assume de
direita, a esquerda é moralmente errada a priori. Se ele se
assume de esquerda, o contrário se dá. Mas quem duvidaria que eles
são necessários à democracia? E eis que somos obrigados a
conviver.
Porém há
o fanático – e este não é só perigoso, mas mortífero – que é
anti-democrático e que, por isso, põe o próprio chão do que
conhecemos como tolerância em risco. Dá pra tolerar um Hitler, um
Franco, um Mussolini, um Geisel? Há quem diga que a Segunda Grande
Guerra só aconteceu porque Hitler foi tolerado tempo demais. Tendo a
concordar – exemplos como esses ai nos fazem ter uma leitura não
banal do afamado dito de Voltaire (que é mais ou menos assim):
Posso não concordar com uma palavra do que dizes, mas defenderei até a morte o direito de dizê-las.
O
problema é que a frase só prevê o tempo de vida (“até a
morte”), e o fanático quer justamente é nos ver mortos. E mortos
não temos como defender o direito dele. Sendo democrata, então,
fica difícil tolerar alguém não democrata. A intolerância nestes
casos é necessária para resguardar a própria tolerância. Talvez
tenha sido por isso que Rousseau, certa vez disse:
O fanatismo não é um erro, mas um furor cego e estúpido, que a razão nunca contém. [...] Podeis demonstrar a loucos, do melhor modo possível, que seus chefes os enganam, e não serão menos ardorosos em segui-los. Desde que o fanatismo exista, só conheço um único meio de impedir seu progresso - contra ele empregar suas próprias armas. Não se trata de raciocinar ou de convencer; impõe-se no caso deixar a filosofia, fechar os livros, empunhar o gládio e punir os impostores. (Carta a D'Alembert sobre a construção de um teatro de comédia em Genebra")