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terça-feira, 23 de junho de 2015

Viviany Beleboni não representa


Viviany Beleboni, a atriz que realizou uma performance em que aparecia crucificada, na última parada gay, participou ontem do Hora da Coruja, programa de filosofia na FlixTV, conduzido pelos amigos Francielle Chies e Paulo Ghiraldelli Jr., ocasião em que lhe fiz uma pergunta. Perguntei-lhe sobre o que ela achava do caráter político da parada gay, do modo como se manifestavam politicamente a comunidade LGBT.

O que motivou minha pergunta foi o fato de, mais cedo, ali mesmo, e em outras entrevistas, Viviany ter alegado que não concordava com o modo com que estão, principalmente alguns políticos difamadores, vinculando sua imagem à de outros manifestantes mais exaltados.

Sabe-se que o pastor deputado Marcos Feliciano divulgou uma montagem em que aparecem as imagens de Viviany crucificada em um quadro, junto a outros quadros em que aparecem outros manifestantes executando performances mais agressivas, uma delas é a de enfiar um objeto no cu, outra é a de fumar maconha. Sabe-se também que já foi desmentido que os quadrantes retratando os heterogêneos manifestantes não são todos da parada gay. (O leitor pode ver a reportagem em que ocorre o desmonte da farsa aqui). Porém, por que incomoda Viviany o fato de vincular sua imagem a outras manifestações?

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Carregado de ódio


Há um termo, utilizado no vocabulário marinho, que designa a escultura com feições humanas ou animalescas, geralmente em forma de busto, embora possa aparecer de corpo inteiro também, que ornamenta a dianteira das embarcações. Tal escultura serve geralmente para evocar o nome da nave e também para afastar maus espíritos. Servindo para este último propósito, a cabeça de proa é quase sempre uma criatura feroz, com feições sombrias, fechadas, feitas na medida para impor o medo. Estou falando aqui da carranca.

A origem da palavra carranca é controversa, segundo o Houaiss. Não tem etimologia. Mas ao se fazer um exercício imaginativo pode-se aproximá-la por semelhança do verbo carregar. Essa sugestão ganha ainda mais força quando se verifica que outro atributo, além de sombrio, para expressar a feição da carranca é justamente a adjetivo carregada. Carregar é adicionar algo a algum lugar. Porém, quando algo está carregado, em sentido figurado, significa que há um excesso de carga, como quando nos referimos a um “perfume carregado”. A carranca só é carranca porque apresenta as feições carregadas e, por isso mesmo, medonhas.

Deriva de carranca, o qualificativo carrancudo. O carrancudo é aquele que, além da fisionomia, tem carregado o espírito e, devido a isso, seus fluidos corporais não circulam bem. Na antiguidade, tais fluidos corporais eram chamados de humores e eram tidos como determinantes das condições físicas e mentais do indivíduo. Hoje, essa crença antiga sobrevive quando dizemos que alguém está de mau humor querendo nos referir exatamente ao carrancudo. Este, aparte de ser um doente de corpo, é sobretudo um doente de espírito, já que está carregado.

Mas qual é a causa para que alguém se encontre, nesse sentido, carregado?