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sábado, 27 de fevereiro de 2016

Como a arte moderna ficou atada ao seu impulso de chocar



Roger Scruton
escritor e filósofo britânico

Qualquer um pode mentir. É suficiente que diga algo com a intenção de enganar. Fingir (faking), entretanto, é uma façanha. Para fingir é preciso enganar pessoas, incluindo a sua própria. O mentiroso simula estar chocado quando sua mentira é descoberta: sua simulação, porém, é parte da mentira. O fingidor realmente fica chocado quando descoberto, porque criou sobre si mesmo uma comunidade de confiança, da qual ele próprio é um membro.

quinta-feira, 18 de junho de 2015

Filosofia: razão e fé


Greg Ganssle
Universidade de Yale

É uma ideia muito popular a de que fé e razão são opostas. Assim, se sustento algo baseado na fé, não é o caso que eu tenha também boas razões para sustentar isso. Ou, se argumento sobre algo, não é o caso que eu tenha fé. Algumas das razões porque é difícil hoje relacionar fé e razão tem a ver com o modo como falamos sobre o que acreditamos.

sexta-feira, 12 de junho de 2015

Acertar no alvo*

Ernest Sosa

Ernest Sosa**

O que é saber verdadeiramente algo? No dia a dia, podemos não pensar muito nisso – a maioria de nós repousa naquilo que considera ser julgamento justo e senso comum ao estabelecer o que é conhecimento. Mas a tarefa de definir claramente o que é conhecimento verdadeiro é mais complicada que possa parecer à primeira vista e é um problema que os filósofos têm lutado contra desde Sócrates.

Nos complacentes anos 1950, era sabedoria consolidada que sabíamos ser uma dada proposição verdadeira se, e somente se, ela é verdadeira, nós a acreditamos verdadeira e estamos justificados em acreditar nisso. Esse consenso foi explodido em uma breve nota de Edmund Gettier, na revista Analysis.

Aqui vai um exemplo do tipo usado por Gettier para refutar a teoria. Suponha que você tenha todas as razões para acreditar que você tem um Gol, já que o tem em sua posse há vários anos e o estacionou essa manhã na vaga usual. Entretanto, ele acabou de ser destruído por uma bomba, de modo que você não possui Gol algum, a despeito de sua crença justificada de que possui. Enquanto está tomando seu café da manhã num quiosque, você medita que alguém ali possui um Gol (já que, afinal, você o possui). E finda que você está correto, mas só porque outra pessoa no quiosque, o garçom, possui um Gol, fato que você nem suspeita. Aqui, então, você tem uma crença verdadeira bem justificada que não é conhecimento.

Após muitas tentativas de ajustar a explicação do tipo crença verdadeira justificada com poucas modificações, os filósofos empreenderam algo mais radical. Uma abordagem promissora sugere que conhecimento é uma forma de ação, comparável a de um arqueiro bem-sucedido, quando ele conscientemente objetiva acertar um alvo.

Um tiro de arco pode ser avaliado de muitas maneiras. Ele pode ser acurado (bem-sucedido em acertar o alvo). Ele também pode ser ágil (habilidoso e competente). Um tiro de um arqueiro é ágil somente se, à medida que a flecha sai do arco, ela é bem orientada e suficientemente vigorosa. Mas um tiro que é ao mesmo acurado e ágil pode, ainda assim, não alcançar a meta. Considere um ágil tiro de flecha, deixando o arco com velocidade e orientação que normalmente acertaria o alvo na mosca. Então, uma rajada de ar o desvia, mas uma segunda rajada o coloca de volta no caminho. Esse tiro é acurado e ágil, mas falha em ser apto. A aptidão de um tiro requer que seu sucesso seja alcançado não apenas por sorte (tal qual a sorte da segunda rajada). O sucesso precisa ser antes o resultado de uma competência.

Isso sugere a explicação AAA de um bom tiro de arco. Mas podemos generalizar a partir desse exemplo, para dar uma explicação de uma tentativa completamente bem-sucedida de qualquer tipo. Qualquer tentativa terá um alvo distintivo e será, assim, altamente bem-sucedida somente se obter sucesso não apenas agilmente, mas aptamente.

Claro, uma tentativa completamente bem-sucedida é boa, acima de tudo, somente se o objetivo do agente é bom o suficiente. Uma tentativa de assassinar uma pessoa inocente não é boa, mesmo que seja completamente bem-sucedida. Aristóteles, em sua Ética a Nicômaco, desenvolveu uma explicação AAA de tentativas de levar a uma vida próspera, em acordo com virtudes humanas fundamentais (por exemplo, justiça e coragem). Tal abordagem é chamada de ética das virtudes. Já que há uma quantidade de verdade que precisa ser captada, caso alguém queira prosperar, alguns filósofos começaram a tratar a aptidão de alcançar a verdade como virtuosa, no sentido aristotélico, e desenvolveram uma epistemologia da virtude, que também finda por resolver problemas do tipo posto por Gettier. (O próprio Aristóteles, em VI.2, da Ética a Nicômaco, suporta o alcance da verdade como o bom funcionamento do intelecto.)

A epistemologia da virtude inicia por reconhecer asserções ou afirmações. Estas podem ser tanto públicas, em alto e bom som, ou a si mesmo, na privacidade da própria mente. Uma afirmação pode ter um ou vários objetivos, e até mesmo mais de um de uma vez só. Pode ter como objetivo enganar, como quando é uma mentira. Ou pode ter como objetivo exibir-se, revigorar alguém ou estimular confiança em si próprio quando se entra em uma competição atlética.

Um tipo particularmente importante de afirmação é aquele que objetiva alcançar a verdade, em acertar o alvo. Tal afirmação é chamada de alética (do termo grego para verdade: aletheia). Tudo que uma afirmação precisa para ser alética é que um de seus objetivos seja este: acertar o alvo.

Os humanos realizam atos de afirmação pública no esforço de falar a verdade, atos de crucial importância para uma espécie linguística. Precisamos de tais afirmações para atividades da maior importância para a vida em sociedade: para deliberação coletiva e coordenação e para o compartilhamento de informação. Precisamos de pessoas dispostas a afirmar as coisas publicamente. E precisamos que elas sejam sinceras (em geral), alinhando afirmação pública com julgamento privado. Finalmente, precisamos de pessoas cujas asserções expressem o que elas sabem realmente.

A epistemologia da virtude fornece uma explicação do conhecimento do tipo AAA: saber afirmativamente é fazer uma afirmação que é acurada (verdadeira) e ágil (que requer levar apropriadamente em conta as evidências). Em adição, porém, a afirmação precisa ser apta, ou seja, sua acuidade deve ser atribuível à competência, em vez de sorte.

Requerer do conhecimento que seja apto (em adição a acurado e ágil) reconfigura a epistemologia enquanto uma ética da crença. E, como bônus, permite à contemporânea epistemologia da virtude resolver nosso problema de Gettier. Agora temos uma explicação do porquê você falha em saber que alguém no quiosque possui um Gol, quando o seu próprio Gol foi destruído por uma bomba, enquanto que acontece do garçom possuir um. Sua crença nesse caso falha em atingir conhecimento pela razão de que falha em ser apta. Você está certo que alguém no quiosque possui um Gol, mas a correção de sua crença não manifesta sua competência cognitiva ou epistêmica. Você está certo somente porque, por sorte epistêmica, acontece do garçom possuir um. Quando nas suas cogitações você afirma a si mesmo que alguém no quiosque possui um Gol, sua afirmação não é uma afirmação alética apta e, assim, falha em atingir conhecimento.

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*SOSA, Ernest. Getting it right. The New York Times, Opinion Pages, Opinionator, The Stone. Nova York, 25 mai. 2015. Traduzido por Vitor Ferreira Lima. Disponível em <http://opinionator.blogs.nytimes.com/2015/05/25/getting-it-right/>. Acesso em: 12 jun. 2015.

**Ernest Sosa é professor de filosofia na Rutgers University. É autor de vários livros, entre eles “Knowing Full Well” e, mais recentemente, “Judgment and Agency”.

quinta-feira, 24 de julho de 2014

Agarrados agarrados a noite toda

Elizabeth Bishop


Agarrados agarrados a noite toda
os amantes permanecem.
Eles revolvem-se juntos
durante o sono,

agarrados como duas páginas
em um livro
que se leem mutuamente
no escuro.

Cada qual sabe tudo
o que o outro sabe,
aprendido de cor
da cabeça aos pés.

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De Elizabeth Bishop
Traduzido por Vitor Lima
Para Evelyn

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Três versões de Judas

Jorge Luis Borges

There seemed a certainty in degradation
(T. E. Lawrence. Seven Pillars of Wisdom. CIII.)

Na Ásia Menor ou em Alexandria, no século II de nossa fé, quando Basílides publicava que o cosmos era uma temerária ou malvada improvisação de anjos deficientes, Nils Runeberg haveria dirigido, com singular paixão intelectual, um dos conventículos gnósticos. Dante lhe haveria destinado, talvez, um sepulcro de fogo; seu nome teria aumentado os catálogos de heresiarcas menores, entre Satornilo e Carpócrates; algum fragmento de suas prédicas, exornado de injúrias, perduraria no apócrifo Liber adversus omnes haereses ou haveria aparecido quando o incêndio de uma biblioteca monástica devorou o último exemplar do Syntagma. Ao invés disso, Deus o deparou com o século XX e com a cidade universitária de Lund. Ai, em 1904, publicou a primeira edição de Kristus och Judas; ai, em 1909, seu livro capital Den hemlige Frälsaren. (Do último, há versão alemã, executada em 1912 por Emil Schering; chama-se Der heimliche Heiland).

Antes de ensaiar um exame dos precipitados trabalhos, urge repetir que Nils Runeberg, membro da União Evangélica Nacional, era profundamente religioso. Em um cenáculo de Paris, ou ainda de Buenos Aires, um literato poderia muito bem redescobrir as teses de Runeberg; essas teses, propostas em um cenáculo, seriam ligeiros exercícios inúteis da negligência ou da blasfêmia. Para Runeberg, foram a chave que decifra um mistério central da teologia; foram matéria de meditação e de análise, de controvérsia histórica e filológica, de soberba, de júbilo e de terror. Justificaram e desbarataram sua vida. Aqueles que passeiam por este artigo devem, mesmo assim, considerar que aqui não há senão registros das conclusões de Runeberg, não sua dialética e suas “provas”. Quem se resigna a buscar provas de algo crido por ele ou cuja pregação não lhe importa?

A primeira edição de Kristus och Judas leva esta categórica epígrafe, cujo sentido, anos depois, dilataria o próprio Nils Runeberg: Não uma coisa, todas as coisas que a tradição atribui a Judas Iscariotes são falsas (De Quincey, 1857). Precedido por algum alemão, De Quincey especulou que Judas entregou Jesus Cristo para forçar-lo a declarar sua divindade e a acender uma vasta rebelião contra o jugo de Roma; Runeberg sugere uma vindicação de índole metafísica. Habilmente, começa por destacar a superabundância do ato de Judas. Observa (como Robertson) que para identificar um professor que diariamente pregava na sinagoga e que obrava milagres diante do concurso de milhares de homens não se requer a traição de um apóstolo. Isso, no entanto, aconteceu. Supor um erro na escritura é intolerável; não menos intolerável é admitir um fato casual no mais precioso acontecimento da história do mundo. Ergo, a traição de Judas não foi casual; foi um fato prefixado que tem seu lugar misterioso na economia da redenção. Runeberg prossegue: O Verbo, quando foi feito carne, passou da ubiquidade ao espaço, da eternidade à história, da bem-aventurança sem limites à mutação e à morte; para corresponder a tal sacrifício, era necessário um homem, em representação de todos os homens, que fizesse um sacrifício condigno. Judas Iscariotes foi esse homem. Judas, único entre os apóstolos, intuiu a divindade secreta e o terrível propósito de Jesus. O Verbo se havia rebaixado a mortal; Judas, discípulo do Verbo, podia rebaixar-se a delator (o pior delito que a infâmia suporta) e a ser hóspede do fogo que não se apaga. A ordem inferior é um espelho da ordem superior; as formas da terra correspondem às formas do céu; as manchas da pele são um mapa da incorruptíveis constelações; Judas espelha de algum modo Jesus. Dai as trinta moedas e o beijo; dai a morte voluntária para merecer ainda mais a Reprovação. Assim dilucidou Nils Runeberg o enigma de Judas.

Os teólogos de todas as confissões o refutaram. Lars Peter Engström o acusou de ignorar, ou de preterir, a união hipostática; Axel Borelius, de renovar a heresia dos docetas, que negaram a humanidade de Jesus; o férreo bispo de Lund, de contradizer o terceiro versículo, do capítulo 22, do Evangelho de São Lucas.

Estes variados anátemas influíram em Runeberg, que parcialmente reescreveu o reprovado livro e modificou sua doutrina. Abandonou a seus adversários o terreno teológico e propôs oblíquas razões de ordem moral. Admitiu que Jesus, “que dispunha de consideráveis recursos que a Onipotência pode oferecer”, não necessitava de um homem para redimir todos os homens. Rebateu, logo, àqueles que afirmam que nada sabemos do inexplicável traidor; sabemos, disse, que foi um dos apóstolos, um dos eleitos para anunciar o reino dos céus, para curar enfermos, para limpar leprosos, para ressuscitar mortos e para exorcizar demônios (Mateus, 10:7-8; Lucas 9:1). Um varão a quem o Redentor distinguiu dessa maneira merece de nós a melhor interpretação de seus atos. Imputar seu crime à ganância (como tem fito alguns, alegando João, 12:6) é se resignar ao motivo mais torpe. Nils Runeberg propõe o motivo contrário: um hiperbólico e até ilimitado ascetismo. O asceta, para maior gloria de Deus, degrada e mortifica a carne; Judas fez o mesmo com o espírito. Renunciou à honra, ao bem, à paz do reino dos céus, como outros, menos heroicamente, ao prazer2. Premeditou com lucidez terrível suas culpas. No adultério geralmente participa a ternura e a abnegação; no homicídio, a coragem; nas profanações e na blasfêmia, certo fulgor satânico. Judas escolheu aquelas culpas não visitadas por nenhuma virtude: o abuso de confiança (João, 12:6) e a delação. Obrou com gigantesca humildade, acreditou-se indigno de ser bom. Paulo escreveu: “Aquele que se glorifica que se glorifique no Senhor” (I, Coríntios 1:31); Judas busco o Inferno, porque a bem-aventurança do Senhor lhe bastava. Pensou que a felicidade, como o bem, é um atributo divino e que não devem usurpar-la os homens3.

Muitos descobriram, post factum, que nos justificáveis começos de Runeberg está seu extravagante fim, e que Den hemlige Frälsaren é uma mera perversão ou exasperação de Kristus och Judas. No final de 1907, Runeberg terminou e revisou o texto manuscrito; quase dois anos transcorreram sem que o houvesse entregue à imprensa. Em outubro de 1909, o livro apareceu com um prólogo (enigmaticamente morno) do hebraísta dinamarquês Erik Erfjord e com esta pérfida epígrafe: “No mundo estava, e o mundo foi feito por ele, e o mundo não o conheceu” (João, 1:10). O argumento geral não é complexo, ainda que a conclusão seja monstruosa. Deus, argumenta Nils Runeberg, rebaixou-se a ser homem para a redenção do gênero humano; cabe conjecturar que foi perfeito o sacrifício obrado por ele, não invalidado ou atenuado por omissões. Limitar o que padeceu à agonia de uma tarde na cruz é blasfematório4. Afirmar que foi homem e que foi incapaz de pecado encerra contradição; os atributos de impecabilitas de humanitas não são compatíveis. Kemnitz admite que o Redentor pode sentir fatiga, frio, turbação, fome e sede; também cabe admitir que pode pecar e se perder. O famoso texto “Brotará como raiz da terra sedenta; não há bom parecer nele, nem beleza; depreciado e o último dos homens; varão de dores, experiente em perdas” (Isaías, 53:2-3), é para muitos uma previsão do crucificado, na hora de sua morte; para alguns (verbigracia, Hans Lassen Martensen), uma refutação da beleza que o consenso vulgar atribui a Cristo; para Runeberg, a pontual profecia não de um momento, mas de todo o atroz porvir, no tempo e na eternidade, do Verbo feito carne. Deus totalmente se fez homem, mas homem até à infâmia, homem até à reprovação e ao abismo. Para nos salvar, pode eleger qualquer dos destinos que tramam a perplexa rede da história, pode ser Alexandre ou Pitágoras ou Rurik ou Jesus; elegeu um ínfimo destino: foi Judas.

Em vão propuseram essa revelação las livrarias de Estocolmo e de Lund. Os incrédulos a consideraram, a priori, um insípido e laborioso jogo teológico; os teólogos a desdenharam. Runeberg intuiu nessa indiferença ecumênica uma quase milagrosa confirmação. Deus ordenava essa indiferença; Deus não queria que se propalasse na terra Seu terrível segredo. Runeberg compreendeu que não era chegada a hora. Sentiu que estavam convergindo para ele as antigas maldições divinas; recordou de Elias e de Moisés que, na montanha, tamparam os olhos para não ver a Deus; de Isaías, que se aterrorizou quando seus olhos viram a Aquele cuja glória preenche a terra; de Saul, cujos olhos se cegaram no caminho de Damasco; do rabino Simeón bem Azaí, que viu o paraíso e morreu; do famoso feiticeiro Juan de Viterbo, que enlouqueceu quando pode ver à Trindade; dos Midrashim, que abominam os ímpios que pronunciam o Shem Hamephorash, o Nome Secreto de Deus. Não era acaso ele culpável desse crime obscuro? Não seria essa a blasfêmia contra o Espírito, a que não será perdoada? (Mateus, 12:31). Valerio Sorano morreu por haver divulgado o oculto nome de Roma; que infinito castigo seria o seu por haver descoberto e divulgado o horrível nome de Deus?

Bêbado de insônia e de uma dialética vertiginosa, Nils Runeberg errou pelas ruas de Malmö, rogando alto que lhe houvera sido concedida a graça de compartilhar com o Redentor o Inferno.

Morreu do rompimento de um aneurisma, em 1º de março de 1912. Os heresiólogos talvez o recordarão; ele agregou ao conceito do Filho, que parecia esgotado, as complexidades do mal e do infortúnio.

1944


Tradução de Vitor Lima

Autoria de Jorge Luis Borges 

Texto retirado de BORGES, J. L. Ficciones. España: Emecé Editores, 2006.

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2Borelius interroga com escárnio: “Por que não renunciou a renunciar? Por que não renunciar a renunciar?”

3Euclides da Cunha, em um livro ignorado por Runeberg, anota que para o heresiarca de Canudos, Antônio Conselheiro, a virtude “era uma quase impiedade”. O leitor argentino recordará passagens análogas na obra de Almafuerte. Runeberg publicou, na folha simbólica Sju insegel, um assíduo poema descritivo, A água secreta; as primeiras estrofes narram os feitos de um tumultuoso dia; as últimas, a descoberta de uma lagoa glacial; o poeta sugere que a persistência dessa água silenciosa corrige nossa inútil violência e de algum modo a permite e a absolve. O poema conclui assim: “A água da selva é feliz; podemos ser malvados e dolorosos.”


4Maurice Abramowics observa: “Jesus, d'apres ce scandinave, a toujours le beau rôle; ses déboires, grâce à la science des typographes, joussent d'une réputation polyglotte; sa residence de trente-trois ans parmi les humains ne fut, em somme, qu'une villégiature”. Erfjord, no terceiro apêndice da Christelige Dogmatik, refuta essa passagem. Anota que a crucificação de Deus não terminou, porque o acontecido uma só vez no tempo se repete sem trégua na eternidade. Judas, agora, continua cobrando as moedas de prata no templo; continua beijando Jesus Cristo; continua arremessando as moedas de prata no templo; continua atando o laço na corda no campo de sangue. (Erfjord, para justificar essa afirmação, invoca o último capítulo do primeiro tomo da Vindicação da eternidade de Jaromir Hladik.)

domingo, 26 de janeiro de 2014

Razão mortífera

Theodor Adorno



Se você gosta de se conceber como um simples e comum racionalista então talvez você não queira esquentar a cabeça com Theodor Adorno, o filósofo alemão que colocou o holocausto na conta da hiper-valorização da razão. Porém, Adorno não foi um defensor da irracionalidade, misticismo ou superstição. Ele é um intencional semeador de paradoxos, mas, assim como você, ele está do lado do progresso, da ciência e do secularismo. A diferença é que ele também estava profundamente alerta ao modo como o bom senso obstinado pode levar à complacência intelectual e, em seguida à incompreensão, ao preconceito e à catástrofe.
Adorno nasceu em uma rica família de Frankfurt, em 1903, e foi educado para ser um aristocrata cultural com um forte senso de responsabilidade histórica – um dever para acalentar e preservar as altas tradições das artes e literatura europeias que ele herdara. Mas, enquanto ela era apenas um colegial durante a Grande Guerra, ele aprendeu a odiar o nacionalismo alemão e começou a sentir atração pelo marxismo revolucionário. Ele não precisava ganhar a vida e gastou a década de 1920 se preparando para ser um auto-consciente e elegante escritor, um especialista em filosofia e música e um crítico mordaz de tudo aquilo que fosse considerado falso, bombástico, liso, simplificado, nostálgico ou sentimental. Ele desprezava o otimismo vazio dos positivistas científicos, assim como ele detestava o pessimismo, tal qual ele concebeu, de Kierkegaard e Heidegger e ele foi repelido pela cultura popular de todos os tipos. Em 1934 ele se auto-exilou na Inglaterra e depois nos EUA e observou a resistível ascensão da violência nazista com um terrível espanto. Em seu livro Dialética do Esclarecimento, em coautoria com o teórico social marxista Max Horkheimer em 1944, ele tentou demonstrar que as calamidades políticas do séc. XX não foram desvios de algum plano pré-ordenado do progresso, mas sintomas de uma doença congênita da modernidade: uma enfermidade que permite benevolência transformar-se em terror, conhecimento em mito, razão em dogma e civilização em barbárie. Crescimento econômico, ele diz, “fornece as condições para um mundo mais justo”, mas ao mesmo tempo “permite que o aparato técnico e os grupos sociais que o administram tenham uma superioridade desproporcional em relação ao resto da população.”
Isso pode parecer a doutrina clássica do marxismo, mas, para melhor ou pior, representou algo profundamente revisionista. Para Adorno, as origens da injustiça contemporânea não repousam tanto nas inequalidades e misérias causadas pelo modo capitalista de produção, mas na estupidez gerada pela cultura da modernidade. Ele pensava que a sociedade como um todo tinha sido vítima de uma forma de razão tecnológica que apagou o poder da crítica ao obliterar a subjetividade e destruir a cultura autêntica, e ele não tinha expectativa que a classe trabalhadora fosse se levantar um dia e expropriar os expropriadores e liderar a humanidade em direção a um reino dourado de liberdade e igualdade. A razão iluminista criou uma forma de falsa consciência que – emprestada do teórico húngaro Georg Lukács – ele chamou de “reificação”, significando algo que trata relações sociais mutáveis como se elas fossem fatos da razão que não se transformam. Esse processo foi trazido para uma grotesca perfeição pela “indústria cultural”, em que cinema, rádio, teatro e jornais derramam um miasma venenoso de pornografia, lascívia e auto-congratulação mútua, ao mesmo tempo em que o sucesso e o reconhecimento popular se confundem com mérito artístico. A verdadeira inteligência e a arte genuína tinham se transformado, portanto, em passatempo idiossincrático de um pequeno e exclusivo avant-garde.
Alguns leitores se empertigaram diante da aparente implicação de que Adorno era o único qualificado a falar pelo pequeno enclave cultural que tinha escapado da devastação geral. Ele parecia ter descoberto um modo de se tornar um marxista sem que tivesse que renunciar aos hábitos de um excêntrico e refinado esteta, ou, por assim dizer, de um rico elitista e esnobe, e sua companheira de exílio Erika Mann o descrevia como um “vaidoso patológico” e um “grande blefe”. Quando ele retornou a Frankfurt em 1949 ele foi recepcionado com alegria por estudantes traumatizados e por intelectuais da Alemanha Ocidental como um emblema de retitude incorruptível e ele aproveitou uma curiosa forma de fama popular até sua morte que se deu 20 anos depois, aos seus 65 anos.
Sua reputação se encontra principalmente em Minima moralia, um livro de aforismos e observações escrito em 1951. A premissa geral é a de que nós vivemos em uma “falsa sociedade”, onde tudo é “totalmente organizado” e as pessoas são tratadas como coisas, e coisas como pessoas. Não há qualquer valor, exceto o valor de troca, e isso se infiltrou em nossas vidas tão completamente que nós esquecemos como amar alguém pelo seu valor próprio. Nós até perdemos a habilidade de dar presentes inteligentes: o ato de fabricar um presente se degenerou em um estratagema tático, uma troca de má vontade de objetos feitos com “adesão cuidadosa ao orçamento prescrito, avaliação cética do outro e o mínimo de esforço possível.” Enquanto isso, cada encontro com a cultura popular nos fez mais grossos e estúpidos, sendo que estamos sempre muito ocupados para gastar algum tempo com arte, quando muito com “biografias inúteis” que “humanizam” os feitos de grandes artistas, trazendo-os para o nosso próprio nível. A vigorosidade do pensamento original foi substituída pela “profundidade assalariada” de professores universitários, que treinam seus alunos para harmonizar seus julgamentos com os de seus colegas, de modo a ganhar a vida como “porta-vozes da média”. O único remédio possível é combater os “filisteus da cultura”, renunciar ao velho ideal de “coesão teórica” e se esforçar para alcançar a verdade na única forma que ainda tem algum significado: não a trivialidade pré-mastigada do bom senso da racionalidade, mas fragmentos irregulares de visão cujo valor não reside na sua plausibilidade, mas na sua “distância da continuidade do familiar”.
Por provocações apimentadas como essa, Minima moralia merece um lugar em toda estante de livros de um racionalista. Mas há momentos em que Adorno exagera e se torna inteligente pela metade. “Só a mentira absoluta agora tem qualquer liberdade para dizer a verdade”, diz ele, e “a demanda por honestidade intelectual é ela mesma desonesta” – observação que, ao menos para mim, soa nada mais que desculpas chorosas para os seus próprios vícios. Seus livros mais respeitáveis – notavelmente,Dialética negativa e o póstumo Teoria estética – são irritantes de diferentes modos: eles são escritos num estilo de alguém que engoliu uma biblioteca e que perdeu toda a capacidade de percepção clara e de declaração franca, e é difícil imaginar alguém os lendo a não ser por algum imperativo profissional. Por outro lado, ele às vezes mudava a mão para formas de expressão menos rebarbativas – incluindo seminários, muitos deles publicados, e discursos populares de rádio – nos quais a ideia de irracionalidade da razão surge enfim docemente razoável.
Em novo livro, Adorno and the Ends of Philosophy, Andrew Bowie de Royal Holloway, University of London, baseia-se nessas fontes familiares, apresentando seus leitores a um pensador que, uma vez despojado de seus “exageros indefensáveis”, pode ser capaz de trazer paz e prosperidade para o território devastado pela guerra da filosofia contemporânea. Se Bowie está certo, então as facções que tem lutado por décadas, arte e ciência, natureza e cultura, corpo e mente, determinismo e liberdade precisam ler os trabalhos de Adorno e por um fim a suas obsessões destrutivas. Uma vez que eles entendam que a humanidade tem relações com o mundo objetivo que “não são apenas cognitivas” – em particular aquelas obras de arte musicais e outras formas de manifestação artística e de experiência de beleza natural –, eles vão depor as armas, abrir negociações sem condições e se preparar para restabelecer a paz. Bowie combina uma enorme gama de leitura com um poder extraordinário de exposição lúcida, e é difícil ver como a tarefa de transformar Adorno em um pacificador intelectual poderia ser melhor alcançada. Mesmo assim, talvez não estejamos persuadidos: Adorno estava no seu momento mais interessante quando ele estava mais extravagante, e talvez uma das melhores coisas dele foi justamente o exagero.
Traduzido por Vitor Lima
Autoria de Jonathan Rée, filósofo e historiador freelancer. Escreve para várias revistas, dentre elas:  The London Review of Books, Prospect,The Independent e The Times Literary Supplement
Texto original de RÉE, Jonathan. Deadly reason. Rationalist Association. Publicado em 13/01/14. Disponível em http://rationalist.org.uk/articles/4531/deadly-reason. Acesso em 26/01/14.

terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Uma crise de identidade filosófica


Chegando num parque que eu frequentava quando garoto, fui tomado por memórias de infância, cada qual um fértil relato de um passado remoto. À medida que eu ia me lembrando, cada relato escoava no próximo, e eu comecei a testemunhar o desenvolvimento de um intrincado personagem que eu chamo de “eu”. Todos esses relatos que eu tinha escrito na minha experiência fluíam juntos para me fornecer uma única história. Porém, refletindo sobre todas as experiências, objetivos, peculiaridades e valores que tive, ocorreu-me que minha identidade parecia mais esquiva que se poderia acreditar. Ruminando sobre essas vertentes do meu passado, às vezes era como se eu pudesse assistir ao desenvolvimento das minhas peculiaridades, à evolução dos meus valores, meus objetivos sendo atingidos e recriados; mas, em outros momentos, eles reiteradamente apareciam para mim como se fossem elementos estrangeiros a minha paisagem mental. Alguns dos relatos pareciam ser aspectos integrais de quem eu era, enquanto outros pareciam se distanciar, quase como se o personagem principal fosse uma pessoa diferente.


Ponderando melhor, comecei a pensar se haveria mais sobre minha identidade que a intuição ou o senso comum poderiam fornecer. O que me intrigou foi o fato de que eu me considerava uma pessoa única, com uma identidade única, ainda que “me” vendo como algo ainda não decifrado. O garotinho que tem o mesmo nome que eu e que aparece nos meus relatos parece ser tão diferente da pessoa que eu sou hoje, mesmo que eu tenda a incorporá-lo na minha identidade de pessoa única. O que é que me faz uma pessoa única através do tempo com uma única identidade? Poderia ser meu corpo – já que sou e tenho sido um único organismo biológico? Ou é a minha mente – posto que meus estados psicológicos se interconectam de tal maneira que constituem um só continuum? Também comecei a pensar: “Em que ponto da minha vida eu me tornei uma 'pessoa'? Quando eu adquiri 'personalidade'?” Isso me levou a pensar sobre uma série de questões: “Aquele garotinho era realmente a mesma pessoa que eu sou hoje?”, “Se eu enlouquecesse, eu poderia ser considerado a mesma pessoa de antes?” De repente, minhas reflexões tinham me levado a sérias questões metafísicas e filosóficas. Uma escura tempestade de confusão e lampejos de pensamento apareceram, apenas para iniciar um arco-íris espetacular de insights no meu céu psíquico.

Diferentes teorias da identidade

Normalmente, de modo intuitivo acreditamos que nossa identidade permanece constante através do tempo. Reconhecemos mudanças em características específicas etc., mas mantemos a crença da “verdadeira” identidade das pessoas. Se o seu bom amigo Greg afirmar que ele não é a mesma pessoa de cinco anos atrás, não suporíamos que ele fosse agora uma pessoa numericamente diferente; nós consideraríamos essa afirmação como uma figura de linguagem a denotar que Greg passou por importantes situações na sua vida, ou que ele sofreu algumas drásticas mudanças nas suas características mais singulares. Mas quando perguntamos “O que é que faz com que uma pessoa persista como a mesma pessoa através do tempo?”, podemos realmente dizer o que é que dá aos seres humanos as identidades pessoais únicas que nós assumimos que eles possuem?

Muitos filósofos tentaram resolver a questão da identidade pessoal gerando várias teorias a respeito. Farei uma sinopse das duas principais explicações, mencionando alguns dos principais jogadores e seguindo de modo a reconciliar essas visões opostas com uma explicação híbrida do que constitui uma identidade pessoal que persiste através do tempo como uma identidade individual numérica, em outras palavras, o que faz uma pessoa única.

As duas grandes – e rivais – explicações de identidades pessoais em filosofia tem sido teorias físicas ou baseadas no corpo e teorias psicológicas da identidade permanente. Das duas, as dominantes são aquelas que aderem a alguma forma de critério psicológico de continuidade da identidade pessoal. Porém, antes de se aprofundar nessa questão, gostaria de sumarizar a explicação física.

O critério de continuidade corporal para a identidade pessoal afirma: para que uma pessoa em um determinado tempo (t1) e uma pessoa em um tempo posterior (t2) sejam numericamente iguais (ou seja, para que retenham uma identidade única que persiste com o passar do tempo), a pessoa em t1 (P1) e a pessoa em t2 (P2) devem possuir o mesmo corpo. Se é possível dizer que o corpo em questão é de fato o mesmo corpo, apesar das mudanças em relação às suas partes individuais ou composição material particular, então P2 é de fato a mesma pessoa que P1.

Essa visão foca no corpo como um todo: um único corpo humano que pode ser expresso como a mesma matéria física que o corpo anterior apesar de algumas diferenças descritivas. Por isso, se seguimos a existência do corpo físico que recebeu o nome “Greg” ao nascer até o mesmo corpo crescido com a idade de vinte e cinco anos, apesar de várias diferenças físicas, poderá ser dito que ele é de fato o mesmo indivíduo a quem se deu o nome de “Greg” na infância. Nessa teoria, portanto, o que importa para a continuidade da identidade da pessoa é a existência contínua de uma única entidade física. (Versões mais complexas e elaboradas dessa teoria tem sido propostas por David Wiggins e Eric Olsen).

Por outro lado, teorias psicológicas afirmam que o critério para a persistência da identidade pessoal é a relação entrelaçada dos estados psicológicos dos indivíduos. Inicialmente, essa teoria foi postulada por John Locke (1632-1704), frequentemente considerado o pai do problema da identidade pessoal. Ele considerou a memória como o único critério para a identidade. Depois essa teoria foi revisada, por lockeanos e outros, de modo a incluir uma gama de fatores psicológicos, não somente memórias, como forma de explicação da identidade pessoal singular através do tempo. Essas teorias mais sofisticadas focam primariamente na continuidade psicológica ou na conectividade psicológica ou, ainda, na fusão das duas, e frequentemente apoiam-se na ideia de “estágios da pessoa” (uma pessoa em t1 é um estágio da pessoa; em t2, é outro estágio etc.)

Tipicamente, a teoria da continuidade psicológica afirma que para que P1 em t1 seja idêntico a P2 em t2, alguma continuidade de memória e personalidade precisa ser reconhecível entre P1 e P2. A teoria da conectividade psicológica, rigorosamente relacionada à teoria da continuidade psicológica, sustenta que algum tipo de conectividade psicológica é necessária entre os estágios da pessoa para que as duas possuam uma única identidade com o passar do tempo; porém, diferente das teorias da identidade baseadas na memória, a totalidade dos conteúdos dos estados psicológicos podem ser utilizadas e analisadas para designar identidade. Emprestando um sumário conciso do livro de Harold Noonan, “Personal Identity” (1989):

“Tal conexão é aquela que permanece entre uma intenção e o ato posterior no qual essa intenção é executada. Outras conexões psicológicas diretas são aquelas que permanecem quando uma crença, desejo ou qualquer outra característica psicológica persiste... Geralmente, qualquer ligação causal entre fatores passados e peculiaridades psicológicas presentes (e não apenas memórias) podem ser subordinadas à noção de conectividade psicológica.”

Objeções e pessoas

Uma refutação clássica ao simples critério da memória para a identidade pessoal foi elaborada por Thomas Reid (1710-96). O seu “Paradox of the Brave Officer” se dá essencialmente da seguinte maneira. Considere uma criança que se torna um jovem e, em seguida, um velho. Baseando-se apenas no critério da memória, poderia-se dizer que a criança é conectada psicologicamente ao jovem, se o jovem tiver uma boa porção de memórias da criança; e que o jovem e conectado psicologicamente ao velho na medida em que o velho tem suficientes memórias de sua juventude. No entanto, o velho pode mesmo assim ser considerado psicologicamente descontínuo, ou seja, desconectado com a criança, devido ao fato de que ele pode não ter memória alguma de sua infância. Entretanto, como é possível que a criança seja o jovem, e que o jovem seja o velho, ao mesmo tempo em que a criança é uma pessoa diferente do velho? “Obviamente, essas objeções atingem o alvo [o simples critério lockeano de memória], mas elas não vão muito além disso”, escreve Noonan (p. 55). Ou seja, ainda que poderosa na sua época, essa objeção falha em ser uma objeção adequada a teorias contemporâneas de continuidade psicológica, que dizem que desde que haja um conjunto contínuo de ligações de memórias entre a criança e o velho, eles podem ser considerados a mesma pessoa. Então (por exemplo), desde que o velho possa lembrar de que foi o jovem, e o jovem possa lembrar de que foi a criança, o velho é a mesma pessoa que a criança.

Um argumento influente mais a favor das teorias psicológicas que das físicas foi proposto por Derek Parfit, no seu “Reasons and Persons” (1984). É o seguinte. Um indivíduo entra em uma máquina de teletransporte na Terra, perde a consciência e acorda em outra máquina de teletransporte em Marte. A máquina na Terra é um “escaner”, e a máquina em Marte é um “replicador”. Uma vez que o escaner copiou os estados precisos de cada molécula do corpo da pessoa, ele transmite as informações ao replicador em Marte e simultaneamente destrói completamente o corpo na Terra. A partir de matéria completamente nova, o replicador em Marte cria um corpo que é uma réplica exata do corpo anterior. A pessoa, então, sai do replicador sem o pensamento de que ela não é contínua com a pessoa na Terra e, então, pode ser considerada a mesma pessoa. Portanto, essa pessoa possui continuidade psicológica, mas não corporal com a pessoa da Terra.

Apesar do seu predomínio na Filosofia, há objeções às teorias psicológicas da identidade pessoal. Uma delas pode ser chamada de “o problema da duplicação”. É possível que um dia surja uma máquina que seja capaz de gravar tudo sobre os estados psicológicos de alguém e de transferir essa informação a um novo corpo, ou até a mais de um corpo. Esse caso é parente de uma variação do teletransporte de pensamento de Parfit, no qual o replicador funciona mal e produz várias réplicas do corpo teletransportado. Nos dois casos, mais de um indivíduo possuirá precisamente os mesmos estados psicológicos, e todos eles estarão conectados com a pessoa anterior. De acordo com essa crítica, o critério psicológico deve ser falso, já que ficaríamos com duas ou mais pessoas encorporadas que, de acordo com o próprio critério, seriam legitimamente consideradas contínuas à mesma pessoa. Intuitivamente, isso parece absurdo.

Outra estória da identidade

Enquanto os defensores do critério psicológico e os advogados do critério corporal continuam a duelar, inventando divertidos e intrigantes experimentos de pensamento baseados em ficção científica, nenhum dos dois conseguiu de forma satisfatória derrotar o oponente.

Cada campo de teóricos tentou capturar algo do que faz um ser humano ser uma única pessoa. Entretanto, nenhum deles parece capturar outro elemento integral da nossa existência, a saber, que nós tendemos a definir a nós mesmos através da contação de estórias. Conhecemos um ao outro aprendendo sobre a história de vida de cada um e nos relacionamos com outros com base nos seus valores, ideologias, crenças, personalidades etc., todos sendo transmitidos por narrativas orais, escritas ou por qualquer outro meio. Portanto, uma resposta alternativa à crise de identidade filosófica tem sido a proposta de que o eu humano ganha sua identidade através da narração. Essa posição é conhecida como a teoria da identidade narrativa.

Todos os teóricos da identidade narrativa sustentam, em algum grau, que a identidade das pessoas são narrativas auto-criadas – alegando que a narração, ou a contação de estórias, é a maneira pela qual nos apresentamos a nós mesmos, a outros, e representamos os outros ao nosso redor. O teórico da narrativa está tentando capturar aquele elemento da experiência no qual dizemos “Ei, diga-me a sua estória” ou “Eu conheço você porque eu ouvi estórias a seu respeito”.

Nessa perspectiva, quem é (e quem não é) alguém depende das estórias de seu passado e das estórias de quem se deseja se tornar; dos objetivos que se tem e das ações levadas a cabo para chegar a eles; dos valores herdados narrativamente ou vindos por reflexão e por uma auto-contação de estórias; do lugar que se ocupa (emplotment) como personagem em uma estória de vida, interagindo com as estórias de outros. O teórico narrativo, portanto, toma habilidades linguísticas humanas e orientações quanto a objetivos como fatores que desempenham um papel importante na aquisição de uma identidade única enquanto pessoa. Alguns teóricos tem sustentado que o eu pessoal é o resultado de uma narrativa unificada e interativa; outros, o centro virtual de vários fluxos narrativos; outros, ainda, mantem uma posição mais existencial, enxergando o eu como um vir-a-ser constante, evoluindo à medida que se interage com o meio ambiente e que se reflete sobre a própria vida. Entre os proeminentes defensores da identidade narrativa estão Daniel Dennett, Alasdair McIntyre e Paul Ricoeur. Embora com abordagens diferentes, todos eles tentam capturar características da condição humana que os teóricos anteriores deixaram de fora, ou seja, a importância de nossas história de vida, imersão cultural, direção a um objetivo e auto-criação.

De volta à vida

Embora essas teorias sobre o que faz você continuar a ser quem você é possam parecer obscuras e abstratas, elas mantém de fato alguma influência sobre a vida humana e as preocupações que surgem no dia a dia – especialmente no campo médico, em que somos confrontados com questões envolvendo morte cerebral, estados vegetativos permanentes, comas, testamentos e outros dilemas psiquiátricos. De um jeito ou de outro, tudo isso traz questões relacionadas às várias teorias apresentadas.

Saindo da minha estada no parque e tendo refletido sobre os grandes mistérios da condição humana, perguntei a mim mesmo: “Não pode que eu seja, ao mesmo tempo, dependente de minha conectividade psicológica, de minha constância biológica e de minha história de vida?” Ainda que eu não tenha conseguido um milagroso avanço filosófico durante o meu passeio, espero ter fornecido algumas pistas de reflexão com este sumário de posições sobre a “crise de identidade filosófica”.


Texto traduzido por mim do original:

DURANTE, Chris. “A Philosophical Identity Crisis”. Philosophy Now Magazine, julho/agosto, 2013. Disponível no site: http://philosophynow.org/issues/97/A_Philosophical_Identity_Crisis. Acesso em 17/08/2013.


O autor do artigo, Chris Durante, possui PhD em Ética, MA em Estudos Religiosos e Msc em Filosofia de Distúrbios Mentais. Seus interesses em teorias da identidade e da personalidade alcançam uma variedade de campos, incluindo Bioética, Filosofia, Religião Comparada e teorias sociopolíticas. Leciona na McGill University de Montréal e também na Marymount Manhattan College e na St John's University, ambas em Nova York.